A moratória de um ano para empreendimentos de grandes data centers no estado de Nova York é um alerta para o Brasil. A escassez de água, a poluição e o repasse de custos de energia para a população pesaram na decisão da governadora e também levaram parlamentares americanos a defender uma moratória nacional até que o país aprove uma legislação para o tema.
O custo socioambiental da infraestrutura da inteligência artificial foi exposto em exemplos e dados na maior conferência da Ciência da América Latina, a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que acontece nesta semana na cidade de Niterói (RJ). O presidente Lula comparece nesta terça ao evento.
Especialistas e pesquisadores cobraram mais transparência e diálogo das autoridades brasileiras nos processos decisórios e de licenciamento ambiental.

A reunião da SBPC acontece no campus do Gragoatá da UFF, entre palestras e apresentações paralelas no Distrito de Inovação – Estação Cantareira, inaugurado junto com o evento
“A falta de transparência e informação é muito grande (…) Tivemos muita dificuldade em obter informações de órgaos de controle, dos ministérios públicos tanto federal quanto estadual, municípios locais, afirmou Dan Levy, da Unifesp, que conduz uma pesquisa sobre a implementação de um data center gigante no Ceará.
Doutor em sociologia urbana pela Universidade de Coimbra, líder do grupo de Pesquisa Direito, Justica e Mudança Climática do CNPQ, Levy compartilhou com a plateia que nem órgãos de controle da região teriam exigido estudos de impacto ambiental, considerando o tamanho do empreendimento e o impacto que causará na região.
A ByteDance, controladora do TikTok, está construindo seu primeiro mega data center e maior campus de inteligência artificial fora da China no Complexo Industrial e Portuário do Pecém, entre Caucaia e São Gonçalo do Amarante, Ceará. O projeto conta com investimentos estimados em R$ 200 bilhões.
Levy mostrou imagens de protestos, lembrando que serão consumidos 300 MW de energia, o equivalente ao consumo de uma população da ordem de 2,2 milhões de pessoas, cinco vezes o tamanho da população da região. É o colonialismo digital, pelo qual comunidades tradicionais locais não possuem acesso a água e energia, mas o data center possui.
Segundo o datacentermap, o Brasil possui hoje 218 data centers, dos quais mais de 50 em São Paulo, 30 em Campinas e 23 no Rio de Janeiro.
Levy lembrou das projeções que mostram a metade do crescimento de energia gerada nos EUA sendo direcionadas para abastecer infraestruturas de IA.
Mundo não sustenta
Na mesma mesa redonda Impactos da instalação de Data Centers no Brasil, o coordenador de laboratório de redes e professor do IFCE, Mauro Oliveira, também defendeu mais transparência de data centers e cobrou o diálogo com a academia e sociedade civil nos processos decisórios. E citou exemplos de estados americanos que impuseram mais rigor aos empreendimentos após protestos por escassez de água e aumento no preço da energia.
“A preço de hoje, o mundo não tem como gerar energia para atender a demanda de data centers”, afirmou, Oliveira, que também é doutor em informática pela Sorbonne, entre outros títulos.
Ele comparou o consumo de energia de um data center de porte gigante como o do Ceará, de 300MW, à capacidade de geração da usina de Itaipu, que por muito anos foi a fonte da maior parte da energia consumida no Brasil.
“Apenas 50 data centers dessa monta seriam suficientes para consumir uma Itaipu”, disse.
O pesquisador citou o Plano Brasileiro de Inteligencia Artificial, do qual a SBPC é signatária, que prevê a expansão da capacidade computacional e nuvem soberana, governança de dados públicos, fomento de modelos e soluções de IA nacional.
A Redata, medida provisoria 1318 que previa incentivos fiscais para a instalação de data centers, foi aprovada na Câmara mas perdeu a validade no começo deste ano.
“Não tem que incentivar para atrair mas sim saber o que cobrar em troca”, disse.
Destino
Na mesma linha, em outra mesa, a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos defendeu a soberania tecnológica diante das disputas globais envolvendo inteligência artificial, semicondutores, plataformas digitais e outras tecnologias estratégicas.
Ela reforçou a necessidade de consolidar a reconstrução do sistema nacional de ciência e tecnologia após anos de restrições orçamentárias. Segundo ela, a nova Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação orientará as políticas públicas da próxima década, priorizando a valorização da pesquisa, a formação e fixação de talentos e o fortalecimento das universidades e centros de pesquisa.
Em seu discurso, a ministra afirmou que “um país que domina a ciência escreve o próprio destino”.

MAC, ícone da cidade de Niteroi, que sedia a SBPC deste ano. Foto: Agência Nossa
Abertura
A reunião da SBPC acontece nesta semana no Gragoatá da Universidade Federal Fluminense (UFF) de 27 de julho a 1ª de agosto, entre palestras e apresentações paralelas no auditório do Distrito de Inovação – Estação Cantareira, inaugurado junto com o evento.
“É uma cidade que fez da ciência um método de governo, que decide políticas públicas com base em evidências e monitora os resultados”, afirmou na cerimônia de abertura a presidente da SBPC, Francilene Garcia, ao lado do prefeito Rodrigo Neves e do reitor da UFF Antonio Claudio Lucas da Nóbrega.
Além de destacar a importância do evento para fortalecimento da ciência, Rodrigo deu exemplos de como a cidade tem abraçado a ciência nos últimos anos, a começar pelo trabalho de combate à covid, pelo qual a cidade na gestão de rodrigo foi reconhecida pela ONU.
“Niterói é uma cidade que acredita muito na ciência, acredita muito na educação e na preservação do patrimônio histórico. Essa cidade construiu histórias extraordinárias junto com a ciência brasileira”, afirmou.
Com o tema “Ciência para todos: soberania, desenvolvimento e inclusão”, o evento reúne autoridades, pesquisadores, estudantes, gestores públicos, representantes de instituições científicas e de movimentos sociais e o público em geral para debater alguns dos principais desafios estratégicos do Brasil.
O evento acontece sem interrupções desde 1949 e sua trajetória arrancou elogios da ministra do STF, Carmén Lúcia, que, em outra plenária do evento, destacou a importância da SBPC para a democracia e a participação das mulheres na sociedade.
A ministra Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, também ressaltou o papel histórico da SBPC na defesa da democracia, das universidades públicas e do enfrentamento ao negacionismo científico.
“A SBPC é muito mais que uma entidade científica. É uma instituição que ajudou a construir o Brasil democrático, que sempre defendeu a ciência e protege as universidades quando elas são atacadas. Enfrentou o negacionismo e sempre pautou o debate sobre o desenvolvimento soberano do Brasil”, enfatizou.
Depois de afirmar que o evento é o ápice do compromisso social da UFF como instituição de produção do conhecimento e divulgação do conhecimento e compromisso com o processo de cidadania científica, Nóbrega ressaltou que as universidades públicas brasileiras conciliam excelência acadêmica e inclusão social.