Duas perguntas não saem da cabeça da mãe de Ana Clara, menina de 5 anos morta por tiro de fuzil em frente a sua casa no bairro Badu, em Niterói (RJ). A primeira ela faz há cinco anos e sete meses, desde a manhã da tragédia: por que o réu pelo assassinato atirou, se, segundo ela e a promotoria, não havia confronto nem ameaça contra sua vida?
A segunda indagação é recente, veio à tona depois do segundo turno das eleições e especialmente nesta semana, no debate entre Lula e Flávio Bolsonaro. “Por que um senador da República dividiria suas atribuições (no Congresso Nacional) para defender o acusado de matar a minha filha?”
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Ana Clara tinha acabado de acordar e estava com o irmão na porta de casa. O cabo da Polícia Militar acusado foi preso em flagrante e denunciado por homicídio qualificado. No mesmo ano, final de 2021, a 3ª Vara Criminal de Niterói determinou o envio do caso a júri popular.
Em março de 2022, o Tribunal do Rio de Janeiro (TJ-RJ) manteve a decisão do juri por unanimidade. A defesa do policial agiu e o caso foi parar no STJ, com assinatura de Flávio Bolsonaro na defesa do caso.
Convite para Flávio atuar
“Quando o caso chegou ao STJ para julgamento eu o convidei (Flávio Bolsonaro) para integrar a defesa, ocasião em que ele se habilitou regularmente nos autos e atuando como advogados, ambos, levamos o feito a julgamento. Julgado o caso, o STJ entendeu que não tínhamos razão e determinou que o caso fosse júri popular que está marcado para o início do próximo ano”, afirmou um dos advogados de defesa em nota para o jornal Folha de São Paulo.
Em entrevista à Agência Nossa, a mãe de Ana Clara avalia que Flávio se contradisse no debate ao responder Lula sobre sua atuação como advogado no caso.
Flávio afirmou que Lula é o mais votado em presídios, no que o presidente rebateu: “Esse assassino que você não deixou ser preso, que matou uma criança de 5 anos, votou em você?”.
“Você não pode criminalizar a advocacia, Lula. Nem teve julgamento e você já condenou o cara”, respondeu Flávio.
Para Cristiane, não houve julgamento ainda justamente devido à atuação da defesa composta por Flávio. Ela teme uma influência ainda maior do político caso este vença as eleições.
“Conseguiram adiar o julgamento para quase o meio do ano que vem. Já são cinco anos, vários meses de espera e mais a metade de um ano para talvez acontecer. Será que se vier como presidente vai acontecer mesmo?
No debate ele disse que o cara nem foi julgado e já se estaria condenando ele. Então se não for julgado não vai ter condenação, e neste caso não vai ter culpado. Então não vai ter quem matou Ana Clara?!”
Na nota enviada ao jornal, a defesa do policial acusado nega que tenha atuado para que o processo fosse adiado, “tendo referido adiamento se dado por determinação do juízo que estava impossibilitado de presidir o ato”.
Veja o vídeo com um trecho da entrevista
A nota afirma ainda que o policial e seus colegas “foram recebidos a tiros de fuzil dentro de uma comunidade e ao reagirem para se proteger e proteger a comunidade, uma criança ficou na linha de tiros e veio a óbito. Justamente por isso a defesa adotou todos os meios legais para que este caso fosse enviado a justiça militar para processamento e julgamento e não ao tribunal do júri”.
A versão, porém, não bate com as informações perícia.
Procuradas por esta reportagem, a assessoria de Flávio Bolsonaro e escritório de advogacia que faz a defesa do policial acusado de assassinato não retornaram até o fechamento desta edição.
A diretora da Unegro Mariana Gameiro, ativista que acompanha o caso, contesta: Ninguém está condenando o livre exercício da advocacia. O que estamos questionando é a postura de um senador da República, Flávio Bolsonaro, que assumiu a defesa de um policial preso em flagrante pela morte de Ana Clara, uma menina de apenas 5 anos.
Há duas semanas, a série jornalística “Revelando” retomou o tema em episódio apresentado pela atriz Camila Pitanga. O caso foi reportado inicialmente por Alice Maciel em matéria publicada pelo ICL Notícias.
Reportagem e edição de Sabrina Lorenzi