O Rio de Janeiro está entre os estados brasileiros de maior risco climático para o saneamento, com maiores chances de desabastecimento de água, contaminação e problemas de saúde pública, mostra levantamento da Agência Nossa com base em estudo do Instituto Trata Brasil.

O estado fluminense está entre os mais vulneráveis do Brasil em quatro dos 14 riscos climáticos mapeados pelo Trata Brasil. Pela terceira vez no ano, o estado enfrenta temperaturas acima de 40 graus por vários dias, com sensação térmica que chegou a 70 graus nesta última onda de calor iniciada na segunda quinzena de fevereiro. Niterói foi por três dias a cidade mais quente do País.

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Apesar de o Rio ser um dos maiores alvos de onda de calor do País, esta não é a principal ameaça ao tratamento da água e coleta de esgoto em seu território.  A exposição a tempestades, que também cresce com o calor e as mudanças climáticas, coloca o estado entre os mais vulneráveis do País.

O acúmulo de sedimentos proveniente das precipitações intensas pode comprometer a capacidade de armazenamento e a filtragem da água, afetando a continuidade e a qualidade dos serviços de saneamento. Os municípios que apresentaram maiores índices de risco neste caso são aqueles que possuem abastecimento por manancial exclusivamente superficial, expostos ao efeito de acúmulo de sedimentos, e que se localizam em regiões com tendência de agravamento de precipitação máxima em 5 dias nos cenários climáticos futuros.

É possível observar os maiores índices deste risco no Espírito Santo, Rio de Janeiro e Goiás. No Rio 71% das cidades têm risco muito alto para essas ameaças aos serviços de saneamento. Foi exatamente o que aconteceu no Leste Fluminense após dias de chuvas intensas, em abril do ano passado. O abastecimento teve de ser interrompido por contaminação de tolueno, uma substância cancerígena altamente perigosa para a saúde.

Niterói (RJ) tem uma das melhores colocações em saneamento do Brasil, mas está entre as mais vulneráveis às mudanças climáticas para tratamento de água e esgoto. Foto: Thiago-Cortes (divulgação Prefeitura de NIterói)

As tempestades podem causar danos físicos relevantes nas infraestruturas das Estações de Tratamento de Água (ETAs), além de efeitos sobre a operação, como redução da eficiência no tratamento de água, especialmente por danos nas instalações ou interrupção no fornecimento de energia elétrica. 

Os municípios que apresentaram maiores índices de risco neste caso são os que se localizam em regiões com projeções de grande volume de precipitação máxima em 1 dia, e com menor quantidade de ETAs para garantir a distribuição e o tratamento adequado da água — a população estaria mais exposta a riscos de desabastecimento e perda da qualidade da água fornecida. 

O risco é muito alto em todo o estado do Rio Grande do Sul, onde em maio de 2024, as chuvas intensas danificaram duas das seis ETAs de Porto Alegre, forçando-as à paralisação.  Santa Catarina, tem o segundo maior risco, e o Rio, o terceiro. 

Sobrecarga de esgoto eleva risco

As tempestades intensas também apresentam um desafio para os sistemas de esgotamento sanitário no país. Estas chuvas concentradas em um único dia intensificam o risco de sobrecarga dos sistemas de esgoto, principalmente em áreas com índice de coleta é insuficiente. O acúmulo repentino de água nas redes pode resultar no transbordamento de efluentes brutos, contaminando cursos d’água e impactando negativamente ecossistemas locais e qualidade de vida da população.

Os municípios que apresentaram maiores índices de risco são aqueles que possuem elevada densidade demográfica, menores índices de atendimento de coleta de esgoto e que se localizam em regiões com tendência de agravamento de precipitação máxima em um único dia. Os maiores índices se concentram nos estados da região Sul, principalmente Rio Grande do Sul e Santa Catarina, além de parte do estado do Rio de Janeiro e Pará. Niterói está entre as de maior risco.

As tempestades agravadas pelas mudanças do clima também geram desafios para as Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs). Nestes eventos, a sobrecarga e os danos nas ETEs podem resultar em qualidade inferior no tratamento de efluentes, com potencial impacto na qualidade de corpos hídricos locais e na saúde pública.

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As regiões com menor quantidade de ETEs ou com sistemas de tratamento já sobrecarregados podem enfrentar riscos maiores, pela falta de alternativas de resposta aos eventos extremos. 

Os municípios que apresentaram maiores índices de risco são aqueles que possuem menor quantidade de ETEs e que se localizam em regiões onde há tendência de agravamento dos eventos de precipitação máxima em 1 dia nos cenários climáticos futuros. Os maiores índices se concentram região sul, especialmente o estado do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, além da região sul e sudeste de Minas Gerais e parte do estado do Rio de Janeiro.

O estudo de riscos climáticos no setor de saneamento no Brasil revela uma situação que exige atenção e adaptação diante das mudanças climáticas, especialmente em regiões que já enfrentam vulnerabilidades sociais, ambientais e de infraestrutura de saneamento. Os cenários climáticos do IPCC indicam que o país será cada vez mais impactado por eventos de ondas de calor, secas prolongadas e tempestades intensas, que colocam em risco a eficiência dos sistemas de abastecimento de água e de esgotamento sanitário e, consequentemente, a saúde e a segurança hídrica da população”

Os estados que estão vulneráveis a um maior número de riscos climáticos para o saneamento, entretanto, estão no Nordeste, concentrados nos estados do Rio Grande do Norte, Paraíba e Ceará, afetados por secas prolongadas e ondas de calor.

O Trata Brasil considerou os seguintes parâmetros para montar o ranking de vulnerabilidade: quantidade de ETAs, ETEs, Balanço Hídrico Qualitativo e Quantitativo; Índice de Coleta de Esgoto; Índice de Desabastecimento de Água, Tipo de Manancial que abastece a região; cargas de esgoto gerada e destinada à ETE ; índice de atendimento e índice de segurança hídrica da ANA, órgão regulador.