Um estudo desenvolvido pelo Instituto de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal Fluminense (UFF) de Volta Redonda, em parceria com o Instituto Direito Coletivo (IDC), aponta os impactos dos plásticos que não podem ser recuperados na coleta seletiva.

A pesquisa, realizada pela Incubadora Tecnológica de Empreendimentos de Economia Solidária do Médio Paraíba (InTECSOL), ligada à universidade, teve como objetivo também mostrar qual a parcela desses plásticos não recicláveis e classificar diferentes tipos de embalagens encontradas.

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A iniciativa é coordenada pelo professor do Departamento de Administração da UFF de Volta Redonda, Luís Henrique Abegão, com a colaboração dos pesquisadores Demétrio Luiz Riguete Gripp, mestrando em Administração Pública pela UFF, e Priscilla de Souza Francisco, tecnóloga em Logística e em Gestão Ambiental, além da equipe do IDC. 

A pesquisa  aponta para a presença alarmante de embalagens oriundas da indústria alimentícia. Quase 82% dos rejeitos plásticos vêm dessa indústria, com os chamados plásticos BOPP – comumente utilizados em embalagens de biscoitos e salgadinhos – liderando o volume com 36,59%.

Embalagens plásticas que catadores não conseguem reciclar segundo pesquisa da UFF. Foto: Divulgação UFF

O Projeto de Lei da Economia Circular do Plástico (PL 2524/2022), em tramitação no Congresso Nacional, propõe o fim dos objetos plásticos de uso único, como copos e talheres descartáveis. Além disso, a proposta incentiva o segmento industrial a pensar em alternativas para as embalagens. “A indústria tem incentivos, inclusive, para que ela se adeque, tanto a melhorar suas embalagens, quanto a pensar em modelos alternativos ao plástico”, aponta Abegão.

A pesquisa contou com a participação de 20 cooperativas em duas fases. Durante a primeira, participaram dez da cidade do Rio de Janeiro e o mesmo número no Sul Fluminense. Já na segunda, foram oito instituições da capital fluminense e 12  no interior do estado.

Metodologia 

A primeira fase concentrou-se na coleta de informações sobre os resíduos coletados e a presença dos plásticos, seja entre os materiais recicláveis ou entre os rejeitos. . Os pesquisadores fizeram o levantamento de como os resíduos eram coletados no território: se havia um programa de coleta seletiva residencial, se os moradores faziam doações às associações ou cooperativas ou, ainda, se os resíduos eram oriundos de grandes geradores. Após o levantamento dos dados preliminares, a pesquisa se voltou para o estudo da gravimetria, um método utilizado para a identificação e análise física da composição das amostras coletadas nas cooperativas.

 “No primeiro momento, queríamos entender a composição do resíduo. Quanto é de papel, quanto é papelão, metais, plástico, vidros e, especificamente, a quantidade de rejeitos. O último é o produto entendido pela cooperativa como algo sem viabilidade econômica, ou seja, que ela não consegue vender para ninguém”, explica o coordenador.

Após a realização da gravimetria geral das amostras, foi realizado uma segunda na fração dos materiais considerados como rejeitos, a pesquisa realizou uma subclassificação para entender a origem dos materiais e os motivos que os fazem não ter comercialidade para as cooperativas, servindo como base para a construção de novos identificadores socioeconômicos.

O impacto gerado nos colaboradores

O relatório aponta que cada catador perde, em média, 16 horas de trabalho mensais – o equivalente a dois dias de trabalho completos – no processo de triagem de materiais que não geram renda ao final do processo. Outro ponto ressaltado pelo docente foi o da dificuldade de conseguir um canal de vendas para certos tipos de plásticos, como os que vêm em cima das cartelas de ovos.

Processo de reciclagem em cooperativa. Foto: Divulgação UFF

“Nós tivemos um índice de mais de 60% de plásticos entre os rejeitos, na primeira fase da pesquisa, e de 45% na segunda fase. Em ambas, os plásticos foram a classe mais representativa entre os rejeitos. A partir disso, fizemos um estudo específico para entender quais são os tipos de plásticos encontrados entre os rejeitos, por que ele é considerado rejeito pela cooperativa e por que não tem reciclabilidade”, conta o professor Abegão.

Abegão também aponta para um outro aspecto analisado durante o estudo, o impacto dos plásticos não recicláveis na produtividade dos trabalhadores. “Nós não queríamos só olhar para reciclabilidade do plástico, mas também para o trabalho do catador, ou seja, como é que isso impacta nas cooperativas de catadores.”