Os governos precisam urgentemente mudar o foco da gestão de crises para a gestão de falências. Um relatório da ONU apela para o fim do pensamento emergencial de curto prazo no que diz respeito à água. Passamos da fase de crise para a fase de falência da água, segundo os especialistas. 

Entre as novas e cada vez mais comuns consequências desta realidade, o artigo “Falência Hídrica Global: Vivendo Além de Nossos Recursos Hidrológicos na Era Pós-Crise mostra casos de afundamento do solo onde aquíferos e depósitos de água se esvaíram, como na Califórnia (EUA) e em Konea (Turquia). No Brasil também há relatos, mas associados a atividade de mineração, sem detalhes sobre localização.

Em alguns lugares, entre os casos alertados Brasil afora, o afundamento do solo chega a 25 centímetros por ano, estragando a infraestutura, aumentando risco de alagamentos e comprometendo cidades costeiras e deltas de rios.

“Onde aquíferos foram eliminados nas zonas costeiras, a água salgada pode se infiltrar mais facilmente em águas para uso potável, tornando-a inutilizável por gerações, se não permanentemente”.

Em meio ao esgotamento crônico das águas subterrâneas, à superalocação de água, à degradação do solo e da terra, ao desmatamento e à poluição, todos agravados pelo aquecimento global, o relatório da ONU declarou nesta semana o início de uma era de falência hídrica global, convidando os líderes mundiais a facilitar uma “adaptação honesta e baseada na ciência a uma nova realidade”.

© UNICEF/UNI585358/Ahmed

“Este relatório revela uma verdade incômoda: muitas regiões estão vivendo além de sua capacidade hídrica, e muitos sistemas de água essenciais já estão falidos”, afirma o autor principal, Kaveh Madani, diretor do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas ( UNU-INWEH ), conhecido como “O Centro de Estudos da ONU sobre Água”.

O relato defende estratégias que previnam danos irreversíveis adicionais, reduzam e realoquem a demanda, transformem os setores que consomem muita água, combatam as captações ilegais e a poluição e garantam transições justas para as pessoas cujos meios de subsistência precisam ser alterados.

Em termos financeiros, o relatório afirma que muitas sociedades não só ultrapassaram os limites da sua “rendimento” anual de água renovável proveniente de rios, solos e neve, como também esgotaram as “reservas” de longo prazo em aquíferos, geleiras, zonas húmidas e outros reservatórios naturais.

Isso resultou em uma lista crescente de aquíferos compactados, subsidência do solo em deltas e cidades costeiras, desaparecimento de lagos e pântanos e perda irreversível de biodiversidade.

O relatório da UNU baseia-se num artigo revisto por pares publicado na revista Water Resources Management.

“Os termos familiares “estresse hídrico” e “crise hídrica” não refletem a realidade atual em muitos lugares: uma condição pós-crise marcada por perdas irreversíveis de recursos hídricos naturais e uma incapacidade de retornar aos níveis históricos”.

Constatou-se extração excessiva persistente de águas superficiais e subterrâneas em relação aos fluxos renováveis ​​e aos níveis seguros de depleção; e a consequente perda irreversível ou proibitivamente dispendiosa de capital natural relacionado à água.

Edição de Sabrina Lorenzi com base no relatório da ONU