A cada dez anos o IBGE revisa a base de cálculo do PIB, atualizando as ponderações de segmentos e incluindo novas variáveis de acordo com as mudanças da economia. Desta vez, o recálculo iniciado em 2024 vem sendo ainda mais complexo, porque além da atualização dos pesos, a mudança incluirá instruções de um novo manual da ONU, que passou a introduzir aos PIBs medições relacionadas ao meio ambiente, à economia digital, à extração de recursos naturais, à desigualdade e ao bem-estar.

A nova metodologia é adotada para os próximos anos e para adequação dos anos anteriores. Uma nova série histórica é construída, enquanto a atual continua sendo entregue, até o fim da revisão. A divulgação do PIB do ano passado está marcada para o dia 3 de março.

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O cálculo do PIB atual tem em 2010 sua base, ano da última atualização. Agora, técnicos do IBGE trabalham para que 2021 seja a nova base, o que vai incluir ainda um novo censo demográfico, uma nova Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) e um novo censo agropecuário — além das atualizações movidas pelas Nações Unidas. As Contas Nacionais seguem as recomendações de organismos estatísticos internacionais – Organização das Nações Unidas (ONU), Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico  (OCDE), Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional (FMI). 

Técnicos do IBGE vinham realizando o trabalho, quando foram surpreendidos, nos últimos dias, por uma série de baixas que esvaziou toda a cúpula à frente do processo de revisão do PIB. No dia 19 o IBGE anunciou a exoneração da coordenadora de Contas Nacionais, Rebeca Palis, responsável pelo cálculo do PIB há 11 anos e à frente do complexo processo de revisão. Em seguida, três gerentes na liderança do processo entregaram seus cargos, criando uma crise sem precedentes em meio à reconstrução da base de dados cruciais para o funcionamento do País. 

PIB Municipal também teria motivado desgaste entre Rebeca Palis e direção do IBGE. Na foto, ela detalha as Contas Nacionais. Divulgação IBGE

 

 O IBGE informou que Palis seria substituída por Ricardo Montes de Moraes, servidor do mesmo departamento que não exercia cargo de chefia. Dias depois, Cristiano Martins, substituto da Coordenação de Contas Nacionais e gerente de Bens e Serviços; Claudia Dionísio, gerente das contas nacionais trimestrais; e Amanda Tavares, gerente substituta de contas nacionais trimestrais, pediram exoneração, em solidariedade à colega.

O ex-presidente do IBGE Roberto Olinto, que antecedeu Rebeca na coordenação das Contas Nacionais, avalia  “absolutamente inadequada” a destituição de Rebeca em pleno processo de revisão do PIB. 

“Hoje se fala mais em crise do IBGE do que nos dados do IBGE. Não entendo o que esta direção quer fazer mas parece que os objetivos não têm relação com o papel de uma instituição geradora de dados estatísticos, com equívoco após equívoco, desconhecimento completo da gestão”, afirmou em entrevista à Agência Nossa.

 Olinto foi coordenador de Contas Nacionais de 2005 a 2014, integrou o grupo de especialistas das Nações Unidas para esta tarefa e foi presidente do IBGE de maio de 2017 a fevereiro de 2019.

Roberto Olinto fala com jornalistas. Foto: Divulgação IBGE

 

O fato de a revisão do PIB seguir no meio do caminho sob outra direção, com outros chefes, preocupa ainda mais os técnicos porque se as mudanças metodológicas resultarem num resultado melhor do PIB, conforme o esperado pelos especialistas, dadas as novas variáveis,  isso poderá ser interpretado erroneamente pela opinião pública como manipulação de dados.

“A direção do IBGE cria essa confusão toda e pode prejudicar a credibilidade desses bons resultados”, afirma à Agência Nossa Wasmália Bivar, que presidiu o IBGE antes de Olinto, entre 2011 e 2016.

Tendência de resultados mais positivos pode ser mal vista

Um resultado favorável após as mudanças poderá parecer manipulação, quando, na verdade, será reflexo das novas variáveis e pesos. 

“Com essa atuação pouco institucional essa direção consegue prejudicar o IBGE e prejudicar o governo. Podia ter tirado a Rebeca antes ou depois, mas, fazer isso agora, durante este processo tão complexo, é muita irresponsabilidade”. 

Olinto também teme o risco de descrédito da produção do IBGE a despeito do viés técnico e isento que o IBGE construiu ao longo dos anos. “Credibilidade se leva tempo para ganhar, pouco para se perder e muito para reconstruir”, completou.

Além disso, tem a questão técnica, da competência mesmo. “Ela é a pessoa do Brasil que indubitavelmente mais entende de contas nacionais”.

Do PIB dependem vários outros indicadores relacionados a investimentos, poupança, contas externas, contas municipais, estaduais, além de políticas públicas. 

O próprio IBGE anunciou a mudança das contas nacionais desta forma.“Trata-se de um projeto complexo que demanda tempo, pois implica mudanças de classificação de atividades, de algumas metodologias e de fontes de dados. A recomendação internacional é para que as mudanças ocorram a cada dez anos, porque, caso contrário, algumas estruturas podem ficar obsoletas. Estar adequado aos manuais internacionais permite, inclusive, a comparabilidade entre as economias de diferentes países”, informou, sobre a atualização das Contas Nacionais. 

PIB municipal no meio do furacão?

Servidores do IBGE atribuem a exoneração de Rebeca a uma provável retaliação de documento com centenas de assinaturas que repudia a gestão do então presidente Márcio Pochmann, economista autor de estudos relevantes para a economia e também conhecido por polêmicas enquanto presidiu o Ipea. 

Mas uma fonte com conhecimento do assunto afirmou que  houve ainda uma disputa interna entre Rebeca e a direção do IBGE devido ao prazo de elaboração do PIB municipal. A funcionária de carreira, que há 11 anos é responsável pelas Contas Nacionais, teria resistido em cumprir o cronograma da elaboração do PIB municipal devido à falta de técnicos para dar conta de todos os trabalhos simultaneamente: o PIB novo, o PIB velho e ainda o PIB municipal. São pesquisas colossais. 

Estados representados por entidades públicas, parceiras do IBGE nas contas municipais, também estariam com dificuldades em manter seus técnicos no trabalho.

Não foi a primeira vez que a atual direção do IBGE exonerou um chefe que se opôs à direção do instituto em meio a um trabalho complexo. Octávio Costa de Oliveira (Coordenador de Agropecuária) foi afastado do cargo durante o  Censo Agropecuário, segundo fontes, por discordância de cronograma junto à chefia, em meados de 2025.

 Onda de exonerações 

Na última esta quinta, o IBGE anunciou a exoneração de outra gerente que se manifestou publicamente contra a direção do IBGE. Ana Raquel Gomes da Silva trabalhou 51 anos no instituto e chefiava a  Gerência de Sistematização de Conteúdos Informacionais (GECOI). Assume em seu lugar José Márcio Batista Rangel, atualmente na Coordenação de Marketing.

Em carta, ela conta que sofreu retaliação, com seu afastamento da chefia e a transferência do departamento para um local bem mais longe do atual, onde fica a gráfica do IBGE.

 “Não sou compatível MESMO com as práticas de gestão em curso, daí a previsibilidade óbvia dos desdobramentos na data de hoje (…) No meu caso específico, com 51 anos de atividades laboriosamente realizadas no IBGE, não pretendo seguir para o Complexo de Parada de Lucas na condição de desterro estabelecida no email enviado pela Coordenação-Geral do CDDI sob o título “Integração da comunicação, da gráfica e das entregas de produtos de disseminação”. Não existe interseção entre as atividades de natureza técnica desenvolvidas pela GECOI e as atividades de natureza industrial prestadas pela Gráfica, o que denota que essa transferência ex officio não é um ato de gestão, mas, sim, de retaliação às nossas ponderações técnicas anteriores, como já denunciado”.

Wasmália Bivar também se diz retaliada por ter se manifestado publicamente contra projeto de fundação que o presidente Pochmann tentou implantar, contido posteriormente pela ministra Simone Tebet, do Planejamento, pasta ao qual o IBGE é subordinado. Aposentada, a ex-presidente do IBGE dava aulas de maneira voluntária na Escola Nacional de Ciências Estatísticas (ENCE) há quase 10 anos. Até que foi afastada no ano passado pela direção.

O afastamento ocorreu também depois que a direção do IBGE pediu ao Ministério Público a apuração de denúncias sobre uma suposta prestação de consultoria em caráter privado por servidores do órgão. Os funcionários da escola se defenderam dizendo que os trabalhos de pesquisa acadêmica feitos por eles se diferem das pesquisas feitas para produção de estatísticas nacionais e oficiais divulgadas pelo IBGE.

Ex-presidente do IBGE e da Comissão Estatística da ONU, Wasmália Bitar foi afastada da Ence, onde dava aulas como voluntária. Foto: Elza Fiuza /Agência Brasil

Procurado para esclarecer os motivos dos afastamentos entre outros pontos colocados nesta reportagem, o IBGE não se manifestou até o fechamento desta reportagem.

As chefias da área de Comunicação também foram afastadas de seus cargos, no final do ano passado. Funcionários de carreira por décadas, foram substituídos por servidores que tinham acabado de ingressar pelo concurso unificado. 

Funcionários que preferiram não se identificar criticam ainda a condução da área de pesquisas e de geociências, cujas chefias entregaram seus cargos. “Ninguém da área quis assumir o lugar de chefia na geociência, e isso me preocupa”, afirma Olinto.

“Eles estão colocando no lugar de chefes de décadas de dedicação e conhecimento outras sem experiência na área, algumas novatas, recém chegadas de concursos. A sensação é que não há compromisso com a instituição”, afirma o ex-presidente. 

Em carta aberta, cerca de 600 funcionários do IBGE afirmaram no começo do ano passado que a atual gestão ameaçava seriamente a missão institucional e os princípios orientadores do IBGE, devido à criação da Fundação IBGE+ como alternativa às demandas por recursos financeiros e que “a condução do IBGE com viés autoritário, político e midiático pela gestão Pochmann é (era) a verdadeira causa da crise em que se encontra a instituição”.

“Essa direção não deu certo, não deu certo com o IBGE, não deu certo com as equipes da casa. Que venha alguém que pacifique. Instituto de estatística, não tem que ficar aparecendo, em qualquer lugar do mundo não politiza,  por causa da credibilidade”, conclui Olinto.